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Carga de gás do ar-condicionado: o que o técnico faz e quanto custa

Manifold com dois manômetros ligado à condensadora de um ar-condicionado, com cilindro de gás ao lado.
Imagem ilustrativa.

O gás do ar-condicionado não acaba e não se gasta com o uso. Ele roda num circuito fechado e, sem furo, segue com a mesma carga por muitos anos. Se está faltando, é porque vazou por algum ponto. Por isso a carga de gás só faz sentido junto com outra coisa: achar o vazamento e consertar. Sem isso, o técnico enche o aparelho, ele volta a gelar e, semanas ou meses depois, o gás some de novo.

O gás não acaba: se falta, vazou

O nome técnico é fluido refrigerante. Ele sai da condensadora (a parte de fora) pelo cano fino, esfria a serpentina da evaporadora (a parte de dentro) e volta pelo cano grosso. É um sistema lacrado. Não existe "gás vencido" nem carga "de tempos em tempos". O que se faz todo ano é manutenção e limpeza, não carga.

Quando alguém diz "acabou o gás", a frase certa é "vazou o gás". O furo pode ser grande e esvaziar o aparelho em duas ou três semanas. Pode ser tão pequeno que leva meses para fazer falta. Esse segundo caso é o que mais irrita o cliente: um técnico completa, depois outro completa, e ninguém acha o ponto.

Os lugares mais comuns são as porcas que prendem os canos nas duas unidades, a conexão atrás da evaporadora e as válvulas de serviço da condensadora. Junto com o gás sai um pouco de óleo, que deixa o ponto sujo e engordurado. Cano de cobre corroído também fura. Produto de limpeza ácido forte demais, usado sem enxágue, é uma das causas.

Sinais de que pode faltar gás

Nenhum destes sinais fecha o diagnóstico. Eles só dizem que vale chamar o técnico para medir.

  • O aparelho liga, o ventilador sopra, mas o ar sai pouco frio.
  • Gela bem de manhã e perde força à tarde, ou leva muito tempo para esfriar o cômodo.
  • Aparece gelo nos canos ou na serpentina.
  • O cano fino lá fora, com o aparelho ligado há uns minutos, está seco, sem "suar".
  • Há mancha de óleo numa porca ou numa conexão.

O engano mais comum é atribuir ao gás o que é sujeira ou peça. Filtro e turbina sujos derrubam a pressão e congelam a serpentina, como se faltasse gás. Ventilador da condensadora girando devagar (capacitor fraco) e tubulação sem isolamento, torrando no sol, fazem o aparelho perder rendimento com o gás na medida certa. Por isso um bom diagnóstico começa pelo filtro, não pelo cilindro.

Como o técnico confirma

O técnico liga o aparelho no modo frio, com a temperatura no mínimo e a ventilação no máximo, para o compressor trabalhar forte. Depois conecta o manifold, um conjunto de relógios de pressão com mangueiras, na válvula de serviço maior da condensadora, a da sucção.

Cada gás tem uma faixa de pressão esperada, e o número muda com o calor do dia, com o tamanho do aparelho e com a sujeira. Por isso a pressão sozinha não é uma medida confiável. O técnico cuidadoso converte a pressão na temperatura em que o gás ferve e compara com a temperatura do cano, medida com termômetro de contato. Essa diferença (o superaquecimento) sobe quando falta gás. Também olha a corrente do compressor antes de concluir.

Antes do gás, o vazamento

A parte mais demorada do serviço não é pôr gás. É achar por onde ele saiu. Furo grande aparece com espuma de sabão: borbulha no ponto. Furo pequeno pede mais: o técnico tira o gás que sobrou, enche o circuito com nitrogênio sob pressão e acompanha o relógio. Se a pressão cai, há vazamento. Aí ele procura ponto a ponto, com espuma ou com detector eletrônico.

Condensadora de ar-condicionado num suporte de varanda, com os tubos entrando na parede.
Imagem ilustrativa.

O conserto depende do lugar. Porca frouxa se aperta. Porca rachada ou ponta do cano malfeita (o flange, aquele alargamento na ponta do tubo) se refaz. Cano furado leva solda ou um trecho novo. Quando o vazamento vem de uma instalação de ar-condicionado recente, com conexão mal apertada, o primeiro a ser chamado é quem instalou.

A carga bem feita, passo a passo

O serviço completo segue uma ordem. Os manuais dos fabricantes pedem teste de vazamento e vácuo antes de qualquer carga.

Bomba de vácuo ligada por mangueiras ao manifold e à condensadora.
Imagem ilustrativa.
  1. Recolher o gás que sobrou, antes de abrir o circuito para o conserto. O certo é guardar em cilindro próprio, com máquina recolhedora. Soltar o gás no ar é proibido para os gases antigos (Resolução CONAMA nº 340/2003) e os fabricantes proíbem também para os novos.
  2. Teste com nitrogênio. Pressurizar e ver se a pressão segura. Nunca com chama.
  3. Vácuo. Com bomba de vácuo e vacuômetro, até o número do manual, em geral entre 250 e 500 mícrons. O vácuo tira o ar e a umidade. Umidade misturada com o gás forma ácido, que corrói o cobre por dentro e ataca o motor do compressor.
  4. Carga por peso. A etiqueta da condensadora diz o gás e quantos gramas o aparelho leva de fábrica. O técnico põe o cilindro numa balança e coloca exatamente esse peso. Se a tubulação passa de um comprimento padrão (em muitos aparelhos, 5 metros), o manual manda somar uma quantidade por metro.
  5. Teste final. Ligar, medir de novo, conferir que o ar sai frio e apertar as porcas e as tampas das válvulas.

Há uma diferença grande entre "completar" e "carga nova". Completar é pôr gás por cima do que restou, olhando o relógio. Carga nova é esvaziar, fazer vácuo e pôr o peso da etiqueta. Em gás de mistura, como o R-410A, muitos técnicos preferem a carga nova, pesada, porque não há como saber quanto e como sobrou dentro do aparelho.

R-410A, R-32 e R-22: o gás muda o serviço

O gás vem escrito na etiqueta da condensadora. Um aparelho só aceita o gás para o qual foi feito. Misturar gases ou trocar um pelo outro estraga o compressor.

GásOnde apareceO que muda no serviço
R-22aparelhos antigosestá saindo de linha por acordo internacional, com fim previsto para 2040 no Brasil. Fica mais caro e mais difícil de achar a cada ano
R-410Aa maioria dos splits vendidos nos últimos anosé uma mistura de dois gases. Entra em líquido, pelo peso. Trabalha com pressão mais alta que o R-22 e pede manifold próprio
R-32boa parte dos aparelhos novos, inclusive invertergás puro, levemente inflamável (classe A2L nas normas de segurança de fluidos). Pede ambiente ventilado e técnico treinado para ele

Se o seu aparelho é R-22 e o vazamento é grande, vale pedir ao técnico as duas contas: o conserto com recarga e a troca do aparelho. Às vezes a segunda faz mais sentido.

Segurança: por que é serviço de técnico

Mexer no gás não é tarefa para quem não é do ramo. O gás sai do cilindro muito gelado e queima a pele por frio. Os manuais de instalação pedem luva e óculos de proteção para quem mexe no gás. O R-32 é levemente inflamável e não tem cheiro: um vazamento perto de chama de fogão, aquecedor ou maçarico pode pegar fogo ou soltar um gás perigoso. Em fachada de prédio, a condensadora fica em altura, e trabalho acima de 2 metros pede equipamento de proteção contra queda (NR-35).

O gás vendido em lata ou cilindro pequeno na internet não resolve: sem achar o vazamento e sem vácuo, ele vaza de novo e ainda deixa umidade dentro do sistema.

Quanto custa

A carga de gás de um split sai entre R$ 100 e R$ 450 (coleta em outubro de 2026). O valor sobe com o tamanho do aparelho, porque aparelho maior leva mais gás, e com o tipo de gás.

Isso é só a carga. O serviço completo costuma somar outros itens, cobrados à parte ou num pacote:

  • visita e diagnóstico com manifold: de R$ 50 a R$ 120;
  • teste de vazamento com nitrogênio: de R$ 120 a R$ 250;
  • conserto do vazamento: de R$ 80 a R$ 250 por ponto, em porca ou flange;
  • vácuo: de R$ 60 a R$ 150.

Sobem a conta: R-22, tubulação longa, vazamento escondido na parede, solda, condensadora em lugar alto e urgência. Desconfie de preço de carga muito abaixo da faixa: em geral é "completar" sem vácuo e sem procurar o vazamento.

Antes de contratar, pergunte

  • Vai conferir filtro, turbina e ventilador da condensadora antes de falar em gás?
  • Como vai saber se falta gás? Vai medir pressão e temperatura com o aparelho funcionando?
  • Se faltar, vai procurar o vazamento? Com nitrogênio ou só com espuma?
  • O conserto do vazamento está no preço ou é cobrado à parte?
  • Vai recolher o gás que sobrou ou soltar no ar?
  • Vai fazer vácuo com bomba e vacuômetro?
  • A carga vai ser por peso, pela etiqueta, ou só pelo relógio?
  • Que gás o aparelho usa, e você trabalha com ele?
  • O serviço tem garantia? Se o gás faltar de novo em pouco tempo, o que acontece?

Um sinal de alerta concreto: o técnico que mede, diz "está baixo" e completa em quinze minutos, sem procurar o vazamento. Outro: quem oferece "carga anual" como manutenção.

Nosso conselho é começar pelo simples. Lave o filtro e veja se a mangueira lá fora pinga. Se o aparelho está sujo, a limpeza de ar-condicionado vem antes de qualquer gás. Se mesmo limpo ele não gela, chame o técnico e conte o que viu: gelo, óleo numa porca, perda de força à tarde. Peça o orçamento separado por item, para saber quanto é o gás e quanto é o conserto. E guarde a nota com o tipo de gás e o peso colocado. Se o problema voltar, ela ajuda o técnico a entender o que foi feito.

Setor de climatização